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Papa beija o braço de sobrevivente de Auschwitz

Papa beija braço de sobrevivente

Lídia Maksymowicz, polonesa de origem bielorrussa sobrevivente aos campos de concentração nazistas e às experiências de Mengele, mostrou a Francisco ontem (26) na Audiência Geral o número de sua deportação para o campo de concentração. Três presentes para o Pontífice a fim de simbolizar a memória, a esperança e a oração. Ao Vatican News: “Com o Santo Padre nenhuma palavra. Nós nos entendemos com o olhar”.

“70072”. Quando Lidia Maksymowicz, polonesa de origem bielorrussa sobrevivente aos campos de concentração nazistas, descobriu seu braço hoje no momento do beija-mão durante a Audiência Geral, mostrando sua tatuagem de ex-prisioneira de Auschwitz, o Papa Francisco olhou para ela por alguns momentos. A seguir, ele se inclinou e deu um beijo naquele número que depois de 76 anos a lembra diariamente o horror que ela viveu. Nenhuma palavra, como fez o Pontífice naquela visita ao campo de concentração, em 2016, mas apenas um gesto espontâneo, instintivo e afetuoso. Um gesto que “me fortaleceu e me reconciliou com o mundo”, disse Lídia emocionada ao Vatican News.

Na Itália para contar seu testemunho

“Com o Santo Padre nos entendemos com os olhos, não foi preciso dizer nada um ao outro, não havia necessidade de palavras”, explicou Lídia, uma das últimas sobreviventes dos campos de concentração na Europa, residente em Cracóvia, que está atualmente na Itália como convidada da associação La Memoria Viva de Castellamonte (Turim) para contar aos jovens o seu testemunho, agora presente num filme documentário dedicado a ela, intitulado “A menina que não sabia odiar”.

Lidia aproveitou sua visita à Itália, já planejada mas depois adiada várias vezes por causa da pandemia, para passar por Roma, hospedada pela Embaixada da Polônia na Itália, e conhecer o Papa que ela diz amar profundamente: “Depois de João Paulo II, amo o Papa Francisco. Sigo suas cerimônias na TV, rezo por ele todos os dias, sou fiel e afeiçoada a ele”.

As duas mães: a perdida em Auscwhitz e a adotiva

Um encontro muito esperado que acontece num dia especial para esta senhora idosa e bem cuidada: o Dia das Mães na Polônia. “Para mim é um dia especial, porque tive duas mães: a que me deu à luz e que me foi tirada no campo de concentração quando eu tinha 3 anos, e a mãe polonesa que me adotou uma vez que eu era livre e a quem devo minha salvação”.

Três presentes para o pontífice: memória, esperança e oração

Naqueles poucos instantes no final da audiência, Lídia não conseguiu contar ao Papa sua história, mas lhe deu três presentes que simbolizam o que são agora as pedras angulares de sua vida: a memória, a esperança e a oração. A memória, representada por um lenço com uma faixa azul-branca com a letra “P” de Polônia, sobre um fundo triangular vermelho, que todos os prisioneiros poloneses usam nas cerimônias memoriais. A esperança, com um quadro pintado por sua assistente Renata Rechlik que a retrata quando criança, de mãos dadas com sua mãe, enquanto observam de longe das trilhas a entrada do campo de concentração de Birkenau, símbolo do início do fim para milhões de judeus e outros prisioneiros. Por fim, a oração: nas mãos do Pontífice Lídia colocou um terço com a imagem de São João Paulo II, abençoado por seu afilhado, o padre Dariusz. “É o que eu uso todos os dias para rezar”.

Deportada aos 3 anos

Na verdade, Lídia não deixou de crer em Deus, apesar do mal por ela vivido quando tinha apenas três anos. Em 1941, foi arrancada de sua casa e seus afetos, junto com sua mãe e avós maternos, deportada porque era suspeita de colaborar com os partidários. “Eu era pequena, tinha poucos anos, mas já tinha grande experiência depois de ter vivido cenas de guerra na ex-União Soviética. Eu estava pronta para a dor, para o mal causado pelos homens contra outros homens, mas não esperava viver o que vivi em Auschwitz”.

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“Fui deportada num trem apto apenas para animais, talvez nem mesmo para isso. Quando as portas se abriram, eu vi cenas terríveis. Meus avós se separaram de nós e entre eles. Depois, foram mandados para um pavilhão com uma chaminé da qual saia uma fumaça com um fedor terrível. Eu e minha mãe sujas, famintas e com medo, obedecíamos aos soldados que gritavam palavras incompreensíveis enquanto os cães latiam. Não entendíamos nada, fazíamos tudo o que eles diziam, ficávamos apavoradas”.

As experiências de Mengele

Identificadas no campo de concentração como prisioneiras polonesas, com o “P” costurado em seus uniformes listrados, a mãe foi transferida para o pavilhão dos trabalhadores, e Lídia para uma “casa cheia de crianças de diferentes idades e nacionalidades”. Era o pavilhão em que trabalhava o médico Josef Mengele, o homem que já naquele tempo era chamado de “o anjo da morte”. Aquela casa era o reservatório que Mengele utilizava para realizar suas experiências com mulheres grávidas, crianças gêmeas e pessoas deformadas. Lídia tinha sido enviada a ele porque era uma “menina bonita e saudável”. Depois de quase oitenta anos, ela não se lembra o que Mengele fez com seu pequeno corpo, mas se lembra bem “da dor” e de seu olhar: “Ele era uma pessoa atroz, sem limites nem escrúpulos. Todos os dias muitas pessoas perdiam suas vidas sob suas mãos. Depois da guerra, foram encontrados livros com referências a números tatuados, incluindo o meu”.

O encontro com sua mãe biológica depois de 17 anos

Uma vez libertada, Lídia viveu uma vida incrível: foi acolhida por um casal polonês que representava para ela sua verdadeira família. Depois, foi transferida para a Rússia, em Moscou, onde diz que queriam usar sua história para fins políticos, e por fim, voltou para Cracóvia. Em 1962, ela encontrou sua mãe natural através da Cruz Vermelha: “Eu nunca deixei de procurá-la, mesmo pensando que estivesse morta. Nos reencontramos depois de 17 anos”. O seu afeto tinha se dissolvido nas areias do tempo, assim como as lembranças daqueles três anos vividos juntos antes que um Kapò rompesse seus laços. Depois de tantos anos, para Lídia aquela mulher, que entretanto havia criado uma nova família, era uma figura do passado por quem, no entanto, demostrava grande respeito. Elas se abraçaram, choraram, trocaram algumas palavras, mas Lídia decidiu ficar com sua família adotiva, sempre reconhecendo-a como “minha primeira mãe”.

Um apelo aos jovens: “Que nunca mais se repita aquela atrocidade”.

Lídia Maksymowicz diz hoje que está cansada, mas se agarra à vida com todas as suas forças porque quer cumprir uma missão. Manter viva a memória das novas gerações que crescem numa época em que os fantasmas do racismo e do nacionalismo parecem reflorescer. Lídia pediu para lançar um apelo através do Vatican News e da Rádio Vaticano: “Em suas mãos jovens está o futuro do mundo. Ouçam as minhas palavras, vão visitar Auschwitz e Birkenau e façam com que esta atrocidade nunca mais se repita. Essa história nunca deve ser repetida”.

Via Vatican News

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