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sábado 18 novembro 2017
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O valor da família cristã na visão dos Padres da Igreja

A família cristã recebeu dos santos padres, primeiros escritores cristãos uma importância considerável, seja do ponto de vista bíblico, seja do ponto de vista da realidade. Num mundo conturbado em relação à estrutura familiar, é preciso sempre voltar às fontes para que a família cristã continue a ser o bem precioso que Deus criou para o louvor de todos e de toda a humanidade.

Deus quer a honra dos pais pelos filhos e pelas filhas
Os filhos são chamados a honrar os seus pais. Por isso no livro do Êxodo fala-se da importância das pessoas honrarem os seus pais: Honra teu pai e tua mãe, porque esteja bem e viva por longo tempo sobre a terra(cfr. Ex 20,12). João Crisóstomo, bispo do século V afirmava que o bem maior para os filhos e filhas é ter uma velhice feliz, uma vida com durabilidade, sendo como prêmio para aqueles que honrarem os próprios pais. Seria um mal supremo, dando-se uma morte precoce, por aqueles e aquelas que castigarem ou abandonarem os seus pais. Quem é prepotente contra os próprios pais não comete injustiça só contra eles, mas contra todas as pessoas. Mas quem aos seus pais faz obras de caridade, ajuda a melhorar o mundo, a realidade onde se vive. Isso é o mandamento da lei de Deus para o bem de todas as pessoas.

A importância da educação familiar
São João Crisóstomo elaborou algumas instruções dos pais para com os seus filhos e filhas. É preciso educá-los com grande solicitude, admoestando-os no Senhor. Ela falava da juventude que é uma etapa difícil, de modo que muitos a guiem, a instruam, a acompanhem, a nutram. Colocando-se limites desde o início, na bondade e na firmeza, os pais não sofrerão muito pelos anos sucessivos, porque o hábito das coisas boas e difíceis tornar-se-á para eles e elas, lei, vida decorrente. Um dom grande foi dado aos pais, os seus filhos e as suas filhas, de modo que seja bem educados no serviço, no amor a Deus, ao próximo e a si mesmos. Se a raiz é boa, no caso os pais, também os ramos, os filhos e as filhas se desenvolverão bem, e os pais terão com o tempo, o prêmio de tudo e um dia a vida verdadeira, a eterna.

É preciso uma admoestação dos pais aos filhos e filhas para que assumam bons costumes, não só belos discursos; mas modéstia, simplicidade, amor; estas são as coisas que obterão o Reino dos céus, os bens verdadeiros. Se os monges devem ser educados pela leitura das Escrituras, também os filhos e as filhas ao entrarem neste mundo o sejam por uma educação boa de seus pais.

O cuidado para com os pais
Ambrósio, bispo de Milão do século IV, afirmava que não deveria faltar nada aos pais, por parte de seus filhos. Honrar significa tratar segundo os merecimentos. Você é chamado a nutrir o seu pai, a sua mãe. O fato é que se deve nutrir os seus pais e sobretudo a mãe, não a recompensando com a dor, os tormentos que ela sofreu por você, não tirando o alimento que ela deu a você com piedade materna derramando o leite de seus seios nos seus lábios; não restituirá a fome que ela suportou com amor. Por você jejuou e tomou aquilo que não lhe agradava, chorou, e você pode tolerar que lhe falte alguma coisa? Será fundamental que você, agora, nutre sua mãe. A ela deve aquilo que você tem, aquilo que você é. Se o Apóstolo Paulo afirma categoricamente  que se um fiel ou se uma fiel possui viúvas, assista-as, de modo que na Igreja não se agrave e as viúvas sejam providas nas suas necessidades(cfr. 1 Tm 5,16).

Ambrosio de Milão falava essas coisas porque teve presente o choro de uma mãe. Ele admoestou uma pessoa publicamente devido ao descaso ocorrido, para que o coração se converta aos valores humanos e evangélicos. Por isso a reflexão do Bispo de Milão vai no sentido do cuidado para com os pais. Não permita, filho que os seus pais sejam nutridos com a fome dos outros: não permita que o jejum dos pobres assegure para esses o alimento. Não é preciso envergonhar-te se ao entrar na Igreja, a sua mãe idosa, por você, é conduzida pela mão. O Bispo de Milão é bem objetivo nas suas reflexões em relação aos pais: será que você ajuda os outros e não os seus pais? Por isso outros poderão dizer-te que você deve ajudar a sua mãe, o seu pai. Você ouviu o evangelho do homem rico que tinha de tudo sobre a sua mesa e o pobre Lázaro que pedia ajuda não recebendo nada do rico de modo que os destinos foram diferentes no julgamento, dando-se ao rico as torturas eternas enquanto ao pobre foi dado a vida eterna(Cfr. Lc 16,19). Se é grave a culpa não ajudar as pessoas estranhas, mais grave ainda é excluir os pais. O Senhor não pede um dom fundado sobre a fome dos seus pais, de modo que a palavra de Jesus Cristo aos judeus serve para os seguidores e as seguidoras do Senhor(cfr. Mt 15,5)

Os bens dos pais, a função eclesial
Agostinho, bispo de Hipona, dos séculos IV e V elucidou os bens que são os filhos para os pais, sabendo que a vida passa para todos. “Os filhos são ainda pequenos de modo que permanecerão assim? Ao contrário, desejas que cresçam, desejas que cheguem à idade seguinte. Mas nota que ao chegar uma idade, a outra perece. Vem a puerícia, morre a infância; vem adolescência, morre a puerícia; vem a juventude, morre a adolescência; vem a velhice, morre a juventude; vem a morte e morrem todas as idades”(Com. ao Sl 127,15). Agostinho continua na sua reflexão: Entretanto, se nos alegramos de tal modo com os filhos nossos sucessores, quanto mais devemos alegrar-nos com os filhos com os quais havemos de permanecer, junto daquele Pai que não morre e para o qual nascemos, a fim de vivermos sempre junto dele?(Com. ao Sl. 127,15).

Para Agostinho cada pai exerce em sua casa uma função eclesial, no sentido de amar os seus, esposa, filhos e filhas com afeto verdadeiramente paterno. Por Cristo e pela vida eterna eduque os seus, os exorte, encoraje na sua bondade e responsabilidade. Exerça na sua casa a função do sacerdote servindo Cristo para ser eterno com Ele. Agostinho ressaltava o fato de que muitos entre o povo de Deus serviram a Cristo com a máxima devoção do sofrimento e do sacrifício que eram não só bispos e sacerdotes, mas adolescentes, virgens, jovens, velhos, esposos, esposas, pais e mães de família, servindo Cristo esses deram a sua vida pelo martírio, e, receberam do Pai que os honrou, a coroa da mais alta glória.

Criaturas de Deus
Agostinho falava a respeito do dom de sermos criaturas de Deus, na qual deu aos pais a oportunidade de viver neste mundo. Deus é o Criador de todas as coisas, sejam elas visíveis ou invisíveis pois tudo o que nasce e se mostra a nossos olhos recebe de Deus Criador o princípio de seu desenvolvimento, crescem no devido tamanho e recebem diferentes formas de acordo com as regras do princípio da criação. Uma coisa é, pois, criar e governar a criação como de um centro íntimo e sumo de todas as causas, o que pertence somente a Deus; outra coisa é realizar uma operação externamente de acordo com as forças e faculdades concedidas para o desenvolvimento das coisas que Ele criou. Se as mães ficam grávidas de seus filhos, o cosmos também está grávido de causas germinais. No entanto para Agostinho tais causas são criadas pela essência divina, por Deus Criador na qual nada pode nascer, iniciar ou deixar de existir sem a sua vontade(Cfr. A Trindade III, 13,16). Agostinho colocou o valor do nascimento em família, para que educados nos valores humanos e cristãos, a pessoa se desenvolve com responsabilidade e maturidade na vida para exercer-se bem nas coisas e na comunidade e um dia participar da vida divina.

Conclusão
Percebemos o valor da família cristã nos santos padres, como orientação, educação, e para viver bem na alegria e no amor consigo mesmo, com os outros e com Deus. Valorizemos a família, o dom de Deus para todas as pessoas, as vocações que surgem na família, na igreja, na sociedade e no Reino de Deus.

Por Dom Vital Corbellini – Bispo de Marabá (PA)




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