Dom Orani Tempesta

Nossa Senhora das Dores

No dia seguinte à Festa da Exaltação da Santa Cruz, a Igreja nos recorda a Virgem das Dores, a Mãe Dolorosa.

Ela, a mãe do Salvador, foi, sem dúvida, a pessoa que mais participou da paixão e morte do Senhor.

Ela ouviu cada uma de suas palavras na Cruz. Ele, por sua vez, olha para a mãe com compaixão. Ela experimentou a dor profunda e esteve atenta à agonia do seu filho.

A devoção às dores de Maria é fonte de profunda ação de graças, pois atinge o coração de Cristo. E através de sua liturgia, a Igreja nos exorta e nos dá sem reservas ao amor de Maria.

A liturgia para a celebração de Nossa Senhora das Dores é de origem alemã. Em 1423, o Arcebispo de Colônia reúne o povo para fazer reparações ao coração de Maria, pois hereges haviam violado suas imagens na Diocese, imagens estas onde Maria apresenta-se ao pé da Cruz. Foi, então, que em 1727, o Papa Bento XIII aprova os textos dessas celebrações de Colônia, e a devoção se espalha rapidamente pela Igreja.

A dor da Virgem foi sempre tida como grande fonte de piedade mariana. Recorda-nos o texto bíblico quando Simeão diz a ela: “uma espada transpassará a sua alma”. (Lc 2, 34-35 )

Espada penetrante que Maria sofrerá. Dolorosa espada que será símbolo do caminho da Virgem. E que mais tarde a piedade tomará como sinal plástico das dores sofridas pela mãe do Redentor. A tradição católica apresenta nesses dias as sete dores de Maria.

A jornada de fé de Maria foi acompanhada pela dor: a fuga para o Egito (Mt 2, 13-14); o caso da perda do seu Filho no caminho de Jerusalém e a busca ansiosa para reencontrá-Lo (Lc 2, 43ss), são alguns exemplos.

Evidentemente, na Cruz encontramos o cume deste caminho de sofrimento, o sentido primeiro e último de suas dores.

Não podemos deixar de lembrar também do evento que foi retratado por grandes escultores e pintores, quando da entrega para o túmulo do corpo sem vida de seu Filho (Jo 19, 40-42). Uma das invocações espalhadas pelo Brasil que contempla esse momento é de Nossa Senhora da Piedade.

Devido a essa participação plena e amorosa, Maria torna-se para nós mãe na ordem da graça. Maria também expressa o modelo de perfeita união com Jesus na cruz. Ficar perto da cruz é uma tarefa desafiadora para ela e para todos os cristãos, que exige se alegrar como os que se alegram (Rm 12,15) e chorar como os que choram (Jo 19,25), conforme nos ensina a palavra de Deus.

Nesta memória da Senhora das Dores, o pedido nos é claro: a perfeita participação de Maria na paixão de Cristo. Este é o centro da liturgia do dia 15 de setembro.

Com a sua paixão, Cristo quer libertar o homem, apontando-lhe o caminho, compartilhando com este mesmo homem as alegrias e sofrimentos, a morte e a vida.

Mas, esta paixão não é um fim em si mesmo, mas é para a vida: “Se o grão de trigo não cair na terra e não morrer ele fica só, mas, se morre produz muito fruto” (Jo 12, 24), e a vida é interminável: “Nós sofremos com ele para sermos também glorificados (II Tm 2,11). Esta é a tensão escatológica da vida de cada existência cristã, tal como foi também para Maria, sendo para ela antecipada a glorificação. É esta esperança que deve sustentar a Igreja.

Maria viu seu Filho morrer de forma cruel, e ela, consciente de sua inocência, soube, depois, que este sofrimento desencadeou a personificação da bondade infinita.

A dor de Maria foi o culminar de um longo sofrimento, permeado pelo silêncio. O seu olhar foi um olhar consolador de todas as dores.

E ela se torna, para nós, uma peregrina terrena do sofrimento humano. Mas, é, igualmente, a Senhora da graça redentora da humanidade, pois com esta compartilha alegrias e sofrimentos.

Maria é aquela que sempre permaneceu fiel, humilde e amorosa em meio à humilhação, ela que é tida como a mãe de um executado na cruz. Assim, ela se associa à redenção de seu Filho.

Maria torna-se a nossa advogada, cuja mediação a ela foi dada na própria encarnação de seu filho. “Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Maior sinal de obediência, ela deu ao Anjo. Com o seu sim, Deus pôde realizar o projeto que tinha para a humanidade.

A Igreja a invoca com vários títulos, mas aqui nós a veneramos na experiência do sofrimento. Nos mosteiros cistercienses, no final do dia, tendo uma luz a iluminar uma imagem ou ícone de Nossa Senhora, canta-se a “Salve Regina”, como último momento do dia: “Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, Salve, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.”

Maria Santíssima, Nossa Senhora das Dores, rogai por nós, especialmente por aqueles que são testados pela dor e pelo sofrimento, pela doença e pela falta de dignidade para viver. E aqui me recordo, com dor e carinho, de tantas situações em que mães choram por seus filhos, especialmente nesta semana que passou em nossa região da baixada fluminense, e com as quais me solidarizo.

Nunca se ouviu dizer que pedindo à mãe o filho não atenda. Que nestes dias de dor e de angústia, quando vemos tantas e tantos de nossos irmãos e irmãs sofrendo uma desilusão, um remorso, uma chaga de alma, eles possam sentir em vós, querida mãe, o consolo de vossa presença, como estáveis junto à Cruz de Seu Filho. Que eles possam sentir logo a alegria da ressurreição e da glorificação que também experimentastes com os apóstolos reunidos no cenáculo.

Por Dom Orani João Tempesta – Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)