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quinta-feira 20 junho 2019
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Denunciam chantagens contra bispo católico após acordo entre China e Vaticano

Pe. Bernardo Cervellera, sacerdote missionário, especialista em Igreja Católica na China e editor da agência de notícias AsiaNews, denunciou as chantagens que Dom Vincenzo Guo Xijin sofre das autoridades da China.

Em nota publicada em 3 de abril em AsiaNews, Padre Cervellera disse que Dom Guo Xijin corre o risco de não concelebrar a Missa Crismal de Quinta-feira Santa, porque o Departamento de Assuntos Religiosos não o reconhece como bispo.

Até poucos meses atrás, Dom Guo Xijin era o Bispo de Mindong, reconhecido pelo Vaticano, mas não pelo governo comunista. Após o acordo provisório assinado em 2018 entre Santa Sé e China para a nomeação de bispos, o Prelado concordou em ser nomeado como Bispo Auxiliar de Mindong para que o Bispo titular seja Dom Zhan Silu, cuja excomunhão foi levantada pelo Papa Francisco por causa do acordo.

No entanto e apesar de ter concordado em se tornar Bispo Auxiliar, as autoridades chinesas não reconhecem Dom Guo Xijin e consideram que o seu ministério é “ilegal”, porque não está inscrito na Associação Patriótica Católica Chinesa, controlada pelo governo e que quer alcançar uma “Igreja independente” da Santa Sé.

Dom Zhan Silu é o atual vice-presidente nacional da Associação Patriótica Católica Chinesa.

Um fiel chamado John disse à AsiaNews que, “na prática, isso é chantagem. Se o bispo não se inscrever na Associação Patriótica, não poderá concelebrar com Dom Zhan Silu a Missa Crismal e corre perigo ao exercer qualquer ministério”.

“Depois do acordo China-Vaticano, tudo virou de cabeça para baixo: o bispo que antes era ilegal (excomungado) já pode celebrar, e o que antes era bispo titular, agora se tornou ilegal! Seria engraçado se não fosse sério e doloroso!”, lamentou.

Pe. Cervellera disse em seu artigo que, “em muitas dioceses, a Associação Patriótica e o Departamento de Assuntos Religiosos continuam exigindo que todos os sacerdotes se inscrevam na associação e mantenham a ‘Igreja independente’. A este respeito, o Vaticano manifestou uma tímida reserva em uma entrevista do Cardeal Fernando Filoni concedida ao (jornal do Vaticano) L’Osservatore Romano, destacando que a pertença à Associação segundo lei chinesa deveria ser facultativa.

O editor de AsiaNews disse que, “na Diocese de Mindong, o Departamento de Assuntos Religiosos está chamando todos os sacerdotes clandestinos ou subterrâneos (fiéis à Santa Sé), que são a maioria, um por um, e exigindo que se inscrevam na Associação Patriótica. Caso contrário, devem deixar suas paróquias e seu ministério”.

A Diocese de Mindong tem mais de 90 mil católicos. Destes, pelo menos 80 mil são da Igreja clandestina, na qual servem 45 sacerdotes, 200 religiosas, 300 leigas consagradas e centenas de leigos catequistas; enquanto os sacerdotes “oficiais” são apenas 12.

“Esses números são o suficiente para entender que o Departamento de Assuntos Religiosos busca destruir a Igreja diocesana, afastando os sacerdotes que não querem aderir” à Associação Patriótica, assinalou.

Para pressionar com a inscrição, o Departamento oferece uma recompensa de até 200 mil yuanes, cerca de 30 mil dólares. Até agora, nenhum sacerdote aceitou a oferta.

Na prática, afirma Pe. Cervellera, ao invés de “reconciliação” entre a Associação Patriótica e a Igreja clandestina ou subterrânea, com o acordo entre a China e o Vaticano “há uma grande pressão sobre a comunidade subterrânea com forte interferência na vida da Igreja”.

Dom Zhan Silu disse no início de março em Pequim que obrigar os sacerdotes a pertencerem à Associação Patriótica é, em sua opinião, a única maneira pela qual “se une a Igreja”. O Prelado também declarou que os católicos clandestinos ou subterrâneos não se registram na Associação Patriótica “porque têm interesses pessoais”.

O Acordo Provisório

Em 22 de setembro de 2018, o Vaticano anunciou a assinatura do Acordo Provisório com a China para a nomeação de bispos.

Graças ao acordo, dois Bispos chineses puderam participar do Sínodo da Juventude que aconteceu no Vaticano de 3 a 28 de outubro de 2018. Os prelados aproveitaram a oportunidade para convidar o Papa Francisco para visitar a China.

Alguns manifestaram oposição ao acordo, como o Bispo Emérito de Hong Kong, Cardeal Joseph Zen Ze Kiun, que em um artigo publicado em ‘The New York Times’, em 24 de outubro, escreveu: “Aos Bispos e sacerdotes clandestinos (fiéis) da China, só posso dizer-lhes isto: por favor, não comecem uma revolução. Eles (as autoridades) tomam suas igrejas? Já não podem mais celebrar? Vão para casa e rezem com suas famílias (…) Esperem por tempos melhores. Voltem para as catacumbas. O comunismo não é eterno”.

A bordo do avião no regresso de sua viagem à Letônia, Lituânia e Estônia no final de setembro do ano passado, o Papa Francisco disse aos jornalistas: “Eu sou responsável” pelo acordo.

Sobre os bispos que não estavam em comunhão com a Igreja até antes do acordo, como Dom Guo Jincai que participou do Sínodo, Francisco disse que “foram estudados caso por caso. Para cada bispo fizeram um expediente e estes expedientes chegaram à minha escrivaninha. E eu fui o responsável por assinar cada caso dos bispos”.

Sobre o acordo, Francisco indicou que “a coisa é feita em diálogo, mas nomeia Roma, nomeia o Papa. Isso está claro. E rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que têm nas costas muitos anos de clandestinidade”.

Em 26 de setembro, o Pontífice dirigiu uma mensagem aos católicos da China e à Igreja universal, na qual solicitou “gestos concretos e visíveis” aos bispos que foram retirados da excomunhão.

Via ACI Digital




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